Meia dúzia de post-its,
Ensinaram-nos a medir mal a coragem. Ensinaram-nos que ela vive nos gestos grandes — nos dragões enfrentados, nas guerras ganhas, nos saltos de quem não olha para baixo. Coisas de estátua, de praça, de livro de História com página marcada. Mentira. A coragem maior não faz barulho nenhum. Não tem praça, nem estátua, nem testemunhas. A coragem maior acontece de manhã, num sítio qualquer onde ninguém repara, quando alguém que tem os medos todos a bater-lhe à porta — e não medos de inventar, medos com morada, com história, com certidão — pega numa caneta e escreve meia dúzia de palavras num papelinho amarelo. E entrega-as. Tu não sabes — ou talvez saibas, e por isso escrevo — o que custa cada palavra pequena a quem já pagou caro por palavras grandes. O que custa um «sim» a quem aprendeu que os «sins» têm juros. O que custa estender a mão a quem uma vez a estendeu e voltou com ela vazia e a arder. Os medos batem à porta todos os dias. Não desistem, não tiram férias, não se comovem. E ...