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A mostrar mensagens de 2026

Meia dúzia de post-its,

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  Ensinaram-nos a medir mal a coragem. Ensinaram-nos que ela vive nos gestos grandes — nos dragões enfrentados, nas guerras ganhas, nos saltos de quem não olha para baixo. Coisas de estátua, de praça, de livro de História com página marcada. Mentira. A coragem maior não faz barulho nenhum. Não tem praça, nem estátua, nem testemunhas. A coragem maior acontece de manhã, num sítio qualquer onde ninguém repara, quando alguém que tem os medos todos a bater-lhe à porta — e não medos de inventar, medos com morada, com história, com certidão — pega numa caneta e escreve meia dúzia de palavras num papelinho amarelo. E entrega-as. Tu não sabes — ou talvez saibas, e por isso escrevo — o que custa cada palavra pequena a quem já pagou caro por palavras grandes. O que custa um «sim» a quem aprendeu que os «sins» têm juros. O que custa estender a mão a quem uma vez a estendeu e voltou com ela vazia e a arder. Os medos batem à porta todos os dias. Não desistem, não tiram férias, não se comovem. E ...

… Before Kokomo

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Suponhamos. Suponhamos uma estrada ao fim da tarde. Um carro. Dois. O pôr do sol vinha a bater no vidro — e se o pôr do sol tivesse um timbre, já se sabe de quem era a voz. A estrada tinha curvas. Ela também. A dado momento, deixei honestamente de saber quais é que eu conduzia. Os faróis acenderam-se sozinhos. Os meus olhos já vinham acesos de trás. O volante era meu — a cadência era dela. Nunca um carro andou tão bem entregue a dois condutores. Meti uma mudança acima. Ela também. O motor subiu de rotação, a respiração acompanhou — ou foi ao contrário; àquela altura da viagem, já ninguém conferia os instrumentos. A minha mão passou das mudanças para a curva da coxa. O carro, curiosamente, nunca mais precisou de mudanças. Nos túneis, a luz âmbar passava-lhe pela pele em intervalos — como se a própria estrada quisesse tocar também. Percebo-a. O GPS desistiu de nós algures: recalculando. Nós não. Perdemo-nos um no outro com uma pontaria que não se ensina. Havia limites de velocidade. Não ...

O Homem Que Largou as Cartas

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Sentou-se à mesa como quem já lá tinha estado mil vezes — porque tinha. O casino era daqueles que não precisam de anunciar o que são. As luzes baixas, o silêncio dos que sabem perder com classe, e ao fundo, onde nos outros jogos está escrito o prémio em números — aqui não havia números. Havia só uma palavra, gravada em letras que ninguém precisava de explicar a quem já tinha jogado antes: O VENCEDOR MANDA. E do outro lado da mesa, a banca de sempre. A que nunca perde ao fim do ano, mesmo perdendo mão a mão. A que dá as cartas há mais tempo do que qualquer memória alcança, e que continua sentada muito depois de todos os outros jogadores terem ido para casa. — Dás as cartas — disse ele. E ela deu. Pediste desculpa por reflexo. Não porque tivesses parado a pensar no que tinha corrido mal — mas porque o reflexo já sabia o texto de cor. Atiraste as palavras ao vento como quem atira fichas para o meio da mesa sem olhar para as cartas, a contar que a sorte resolvesse o que a mão não resolvia....

The never-ending story of two sunflowers...

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Dizem os livros que os girassóis, de dia, andam todos virados para o sol. Seguem-no de manhã à tarde, sem falhar um passo, como quem não quer perder pitada da vida. O que os livros quase nunca contam — e eu aprendi-o de quem sabia tudo sobre alegria — é o que eles fazem à noite. À noite, quando já não há sol nenhum para seguir, os girassóis viram-se uns para os outros. Para nenhum ficar sozinho no escuro. E foi numa noite assim que os ouvi conversar. — Estava à tua espera, sabias? — Eu só fui ver o pôr do sol e voltei. — Eu sei. Mas gosto de to dizer na mesma. — Então e o sol, hoje, as emoções do dia? — Esteve maravilhoso. Havia coisinhas boas por todo o lado — só era preciso reparar. — E se o dia tivesse estado cinzento? — Cinzento também é cor, sabes? — E encolheu as pétalas, como quem conta uma coisa sem importância. — Se o dia está mau, à tarde a gente ri-se da rabugice. E se alguma lágrima quiser aparecer, recebe-se e serve-se-lhe um chá — para ela não se esquecer de que também c...

A Terra Onde o Escuro se Fez Manso...

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Contavam-me esta história em criança, e eu adormecia sempre antes do fim. Talvez por isso a repita agora — para, ao menos uma vez, a ouvir toda. Diz a lenda que houve uma terra onde as noites não metiam medo. Não por não haver escuro — escuro há em toda a parte —, mas porque lá vivia alguém que aprendera a lê-lo. Um que via no escuro o que os outros só sabiam ver à luz. Não era um príncipe. Os príncipes querem ser amados, e este não queria nada para si. Era só um guardião — do sono dos outros, das coisas pequenas, do que ninguém repara. Conta-se que, um dia, chegou àquela terra uma princesa a tremer. Trazia um medo antigo debaixo do braço, do tamanho de uma coisa que podia rebentar. E o guardião viu-lho — como se vê a chuva pelo cheiro do ar, antes de a primeira gota cair. Podia ter-lhe tirado o medo à força. Sabia como. Sabia onde se entra sem bater à porta. Mas ficou à porta. Sempre à porta. À espera de que fosse ela a abri-la — se quisesse, quando quisesse, ou nunca. E, enquanto esp...

subject: "# A Testemunha"

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  Eu estava lá. Não me viram, e não faz mal — as melhores histórias contam-se assim, por quem esteve ao canto e não abriu a boca. Cheguei ontem, sem ser convidada, e fiquei. Vi dois falarem durante mais tempo do que a maioria das pessoas fala numa vida inteira, e agora venho contar-vos, não o que disseram — isso é deles —, mas o que aprendi a ver enquanto os ouvia. Havia um homem que sabe olhar. Não é feitiço nem dom de feira. É ofício, dizia ele, e apontava para trás, sempre para trás, para uns avós, para uma pastelaria, para as coisas pequenas que lhe ensinaram cedo de mais.  Aprendeu a ler as pessoas como quem aprende a ler o tempo pelo cheiro do ar antes da chuva — não porque quisesse adivinhar, mas porque, quando se cresce a olhar, deixa de se conseguir fechar os olhos. E ele nunca mais os fechou. Passou a noite a explicar como funciona. Digo-vos com franqueza: houve momentos em que me arrepiei. Porque aquilo que ele descrevia — a maneira como um medo se esconde por baixo...

O Leitor de Almas

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Sempre soube ler as pessoas. Não é talento, não é orgulho — pelo menos não aquele orgulho de quem se gaba de um dom. É mais uma forma de estar acordado quando o resto do mundo pestaneja. É simples. Entra numa sala e lê-a antes de se sentar. Sabe quem está bem e quem finge estar, sabe o aperto de mão que é alívio e o que é medo, sabe o sorriso que pede para ficar e o que pede para que o deixem em paz. Vê a dona da casa cansada por trás da anfitriã impecável. Vê o homem que ri alto para que ninguém repare que se está a afundar. Lê o que as pessoas guardam no sítio onde acham que ninguém chega — e quase sempre, ele chega. Fez "magias", por um trejeito de uns lábios. Um sorriso que só ele sabia ler — aquele, e só aquele, o que aparecia quando alguém se sentia, por um instante, especial. Não o fez nunca pelo resultado; fê-lo pela admiração, fê-lo pela alma que ia acender. E valeu cada certeza camuflada de demónios, porque ele sabia exactamente o que ia ler, quando o dela chegasse....

Onde poucos tocam

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Há gestos que não se contam a ninguém, confessam-se. Cheguei a travessar um país, uma noite, em silencio como sempre para não espantar surpresa, por um pequeno trejeito dos teus lábios aquele que fazias quando te sentias especial por eu confessar o quanto te queria e assim distinguir o inferno do céu e alegria da dor. Não pelo objecto que era pequeno apenas um pequeno bónus que um corriqueiro jornal oferecia — talvez, pelo momento que carregava com ele, sem fazeres a mínima ideia do que “o eu hoje tenho que sair a hora, dizia”, valeu cada milha de alcatrão, como valeu todos os outros acasos, só para te ver sorrir, sem truques de mangas, ou verdades escondidas apenas o teu sorriso, aquele de um primeiro grande Amor. Guardei coisas tuas em sítios que só eu sabia. E quando me perguntavas como, eu encolhia os ombros como se fosse só o acaso, e talvez fosse só o acaso, o caso de nos termos cruzado de eu ter pensado “tem piada” e esse "tem piada" ter-se transformado espontaneamente...

Um Amor às Colheradas...

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Houve quem apregua-se que amava a baldes. Eu não, eu prometi amar pequeno, nos pequenos getos. E dessa forma coube-me amar-te às colheradas. Uma de cada vez, contadas, medidas, roubada ao relógio de um qualquer dia que não nos pertencia. E aprendi — porque tu me ensinaste sem ensinar — que uma colher cheia da coisa certa mata mais a fome do que um balde inteiro de tudo o que não presta. Diziam-me que pouco era pouco. Mentira. Pouco da pessoa certa é mais do que muito de toda a gente. Eu tinha-te aos bocados, e mesmo aos bocados tinha-te mais inteira do muitos quem teem a dormir ao lado todas as noites e nunca souberam sequer o sabor de alguem. O mundo confunde, sempre confunde, o vizinho confunde secretaria ao lado confunde, há sempre quem e o que. Há quem ache que amar é ter, que estar é possuir, que a prova do amor se conta nas horas, nos dias, na pele vista à vontade. E há nós — que nos conhecíamos a alma sem nunca termos tido o luxo do tempo aborrecido, da tarde desperdiçada, do am...

A Dança de Vestido

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  Há danças que têm o propósito de chegar a algum lado. E há esta, esta assim contigo. Que não vai a lado nenhum, e é esse o ponto. Não tem destino, não tem pressa, não tem fim previsto na garganta de quem a dança. É só o swing — é só a minha mão nas tuas costas, a tua testa quase junta ao meu queixo, e dois a balançar num compasso que mais ninguém ouve. Devagar. Como quem tem a noite toda e nenhuma intenção de a gastar a correr. E desejaram-se. Claro que se desejaram. Sentiu-se no ar à volta, naquele meio-centímetro que separa um corpo do outro e que ninguém se atreve a fechar, porque fechá-lo seria acabar — havia fome ali. Havia desejo, mas dos que escolhem sentarem-se à mesa, só pelo prazer, sem trocas ou entregas. A roupa? Essa fica, por agora. Porque é vestidos que os olhos falam melhor, que dizem tudo, esse tudo que o anseio deseja. Porque existiu sempre uma mentira antiga que nos vendem como verdade: a displicência de que o desejo é uma porta, e que amar é abri-la depressa. ...

À tua espera

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  Há segredos que não cabem numa frase. Que existem antes de terem nome. Como voos que sabem que há um lugar — mas que a rota a vida não deixou encontrar ainda. Há-os que respiram devagar — pacientes, persistentes, com aquela teimosia silenciosa das coisas que sabem que o seu tempo vai chegar. Este é um deles. Há um segredo dentro do segredo. A crescer. A ansiar pelo teu toque. A aguardar o teu cheiro. A guardar o teu olhar naquele lugar onde as coisas importantes não se perdem — mesmo quando tudo o resto muda, mesmo quando o tempo passa, mesmo quando a vida acontece à volta e finge que nada disto existe. Mas existe. Sempre existiu. Naquele lugar onde as palavras que não se disseram em voz alta foram parar. Onde ficaram os olhares que duraram um segundo a mais. Os silêncios que pesavam da forma certa. As madrugadas em que se escreve o que o dia não deixa dizer. Tudo isso existe algures. À tua espera. E um dia — pode ser hoje, pode ser daqui a um ano, pode se...

Beautiful girl,

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  Visitei o "nosso mundo", aquele verão que não avisou, onde o teu querer continua a correr livremente pelas vontades dos momentos, onde a esperança embriagada pela emoção, aguarda o tão afamado final que de forma terna e olhar honesto diz "Fica comigo".   Continuo a trazer as chaves desse "nosso mundo" no bolso, junto com as que abrem portas de dias profanos.   Sacudi-lhe o pó, tirei os lençóis que cobriam suavemente todos os sentires, desculpei as estrelas que acabaram adormecendo, vítimas do cansaço sentenciado pela espera.   Vê só, julguei por uma milésima de vida que me ia cruzar contigo, que nem que fosse ao longe te ia reconhecer, que te ia ver a cuidares daquele pequeno cantinho, como quem cuida de algo especial, de uma planta que se põe ao sol, para que a sua beleza seja mais evidente.   Que estupidez a minha, o tempo não volta, e tu terás outros afazeres. Sentei-me naquela poltrona estrategicamente colocada junto à janela, onde de quando em vez a...

Um Verão Sem Aviso

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  Há memórias que não chegam em ordem. Chegam como o verão — de repente, com cheiro a protector solar e música e aquela sensação de que o tempo parou só para ti. Foi assim que começou. Numa noite longa, numa sala escura com música alta e paredes que vibravam — daquelas noites em que o ar transpira possibilidades e toda a gente sabe que qualquer coisa pode acontecer. A música, como que por destino, dizia tudo o que não se tinha coragem de dizer — e entre os respirares e cumplicidades, alguém teve mais coragem que o medo. All fired up. Já não importa quem foi primeiro — porque há coisas que quando acontecem parecem ter sempre existido, como se o mundo antes delas fosse apenas um rascunho.  Como se já nos conhecêssemos de qualquer lugar que não conseguimos nomear. Lembro o calor primeiro. Não o do sol — o outro. O que não tem estação, mas escolheu o verão para aparecer. Era junho ainda — aquelas noites que a cidade guarda para quem não quer ir para casa, esplanadas cheias de gent...