Meia dúzia de post-its,
Ensinaram-nos a medir mal a coragem.
Ensinaram-nos que ela vive nos gestos grandes — nos dragões enfrentados, nas guerras ganhas, nos saltos de quem não olha para baixo. Coisas de estátua, de praça, de livro de História com página marcada.
Mentira.
A coragem maior não faz barulho nenhum. Não tem praça, nem estátua, nem testemunhas. A coragem maior acontece de manhã, num sítio qualquer onde ninguém repara, quando alguém que tem os medos todos a bater-lhe à porta — e não medos de inventar, medos com morada, com história, com certidão — pega numa caneta e escreve meia dúzia de palavras num papelinho amarelo.
E entrega-as.
Tu não sabes — ou talvez saibas, e por isso escrevo — o que custa cada palavra pequena a quem já pagou caro por palavras grandes. O que custa um «sim» a quem aprendeu que os «sins» têm juros. O que custa estender a mão a quem uma vez a estendeu e voltou com ela vazia e a arder.
Os medos batem à porta todos os dias. Não desistem, não tiram férias, não se comovem. E há quem, mesmo assim, todos os dias, lhes escape por uma frincha com um papelinho dobrado na mão — como quem foge da fortaleza pela janela mais pequena, só para deixar um recado do lado de fora do muro.
Meia dúzia de post-its trocados e pouco mais.
Quem olha de fora, sorri: que pequeno.
Quem sabe o preço, descobre-se: que gigante.
Porque o amor não se mede pelo tamanho do gesto — mede-se pelo tamanho do exército que foi preciso atravessar para o fazer. E há papelinhos amarelos que valem mais do que todas as cartas de amor da literatura, porque cada palavra ali escrita derrotou, primeiro, um medo do tamanho de uma vida.
A isso não se responde com aplauso.
A isso responde-se de pé, em silêncio, com a vénia mais funda que se tiver —
e guarda-se o papelinho para sempre.

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