A Terra Onde o Escuro se Fez Manso...




Contavam-me esta história em criança, e eu adormecia sempre antes do fim. Talvez por isso a repita agora — para, ao menos uma vez, a ouvir toda.

Diz a lenda que houve uma terra onde as noites não metiam medo. Não por não haver escuro — escuro há em toda a parte —, mas porque lá vivia alguém que aprendera a lê-lo. Um que via no escuro o que os outros só sabiam ver à luz.

Não era um príncipe. Os príncipes querem ser amados, e este não queria nada para si. Era só um guardião — do sono dos outros, das coisas pequenas, do que ninguém repara.

Conta-se que, um dia, chegou àquela terra uma princesa a tremer. Trazia um medo antigo debaixo do braço, do tamanho de uma coisa que podia rebentar. E o guardião viu-lho — como se vê a chuva pelo cheiro do ar, antes de a primeira gota cair.

Podia ter-lhe tirado o medo à força. Sabia como. Sabia onde se entra sem bater à porta. Mas ficou à porta. Sempre à porta. À espera de que fosse ela a abri-la — se quisesse, quando quisesse, ou nunca.

E, enquanto esperava, cuidava.

Cuidava das coisas que não se veem. Quando a mão ia longe de mais, recuava-a devagar, para onde as mãos não prometem o que a alma ainda não pediu. Quando ela se achava menos do que era, ele repunha a verdade: dizia-lhe que estava, como sempre esteve, particularmente linda — e via-a desviar o olhar, sem acreditar, e amava-a mais por isso.

E semeava.

Pelos caminhos por onde ela havia de passar, ia deixando pequenas magias — acasos que não eram acasos, sorrisos sem dono, pós de uma coisa a que os antigos chamavam perlimpimpim. Para que ela sorrisse, de manhã, sem saber porquê. Porque o sorriso que não sabe a sua razão é o mais puro de todos: é o corpo a dizer que foi feliz antes de a cabeça ter tempo de duvidar.

Nunca lhe disse que era ele. Nunca foi preciso.

Diz a lenda que, a certa altura, o guardião teve de partir. E que, ao partir, deixou que o chamassem vilão — porque um vilão esquece-se, e ele quis que ela o pudesse esquecer, para viver leve, sem o peso de o carregar. Levou o amor inteiro. Deixou só a ausência. De «sou» fez «fui», para que o presente dela ficasse livre.

Mas, antes de se ir, murmurou-lhe ao ouvido uma coisa tão baixinho que ela só a ouviria muitos anos depois — quando estivesse pronta para a ouvir:


«Comigo estiveste sempre segura. Sempre. Até na noite em que te desiludi.»


E é aqui, dizem, que a história muda conforme quem a ouve.

Porque a princesa cresceu a acreditar que, para se lembrar daquela terra sem que doesse, precisava de uma coragem que não tinha. E não era verdade. Nunca fora preciso coragem. O que ela fizera, no melhor daqueles dias, não tinha sido coragem — fora outra coisa, mais simples e mais brava. Sentira. Apenas isso. Deixara-se sentir.

E sentir não pede coragem. Pede só que se feche os olhos, como quem vai dormir, e se deixe o coração fazer aquilo que ele, sozinho, já sabe.

Por isso, quem quer que oiça esta história ao adormecer, que a leve assim: não há nada a temer no escuro, nem a temer na lembrança. Houve uma terra onde alguém te quis bem sem te querer prender. E esse alguém continua, do seu lado do mundo, a semear pequenas magias — sem pedir nada, sem esperar volta — só para que, um dia destes, acordes a sorrir e não saibas porquê.


Dorme, princesa.
A lenda é verdadeira.


Sweet Child of Mine ( Guns n Roses cover)
Jae Hall

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