O Leitor de Almas



Sempre soube ler as pessoas.

Não é talento, não é orgulho — pelo menos não aquele orgulho de quem se gaba de um dom. É mais uma forma de estar acordado quando o resto do mundo pestaneja.

É simples.

Entra numa sala e lê-a antes de se sentar. Sabe quem está bem e quem finge estar, sabe o aperto de mão que é alívio e o que é medo, sabe o sorriso que pede para ficar e o que pede para que o deixem em paz. Vê a dona da casa cansada por trás da anfitriã impecável. Vê o homem que ri alto para que ninguém repare que se está a afundar. Lê o que as pessoas guardam no sítio onde acham que ninguém chega — e quase sempre, ele chega.

Fez "magias", por um trejeito de uns lábios. Um sorriso que só ele sabia ler — aquele, e só aquele, o que aparecia quando alguém se sentia, por um instante, especial. Não o fez nunca pelo resultado; fê-lo pela admiração, fê-lo pela alma que ia acender. E valeu cada certeza camuflada de demónios, porque ele sabia exactamente o que ia ler, quando o dela chegasse.

Era o que ele fazia. Lia.

Lia o medo nos olhos antes de eles o dizerem. Lia a coragem debaixo do cansaço. Lia, anos mais tarde, um "cantinho" que ninguém queria e viu nele um cavalo de Troia que mais ninguém via — porque também isso é ler almas, ler a intenção por baixo de uma proposta, o apetite por baixo da gentileza. Lia as pessoas que dedicavam todo o brilho, nem que fosse a varrer um chão, e via nelas o que os números não viam. Lia toda a gente.

Toda a gente menos uma.

A mais difícil, aquela que obriga a olhar ao espelho.

Essa, não conseguia. Essa, ficava sempre por ler — como um livro que se tem em casa há anos, na prateleira certa, à mão, e que nunca se abre porque há sempre outro mais urgente, o outro de outra pessoa, outra alma a precisar de leitura.

E o simples tornou-se trabalhoso, e assim o leitor de almas, ofuscado, tinha uma cegueira: a dele. Sabia o que toda a gente falava sem dizer uma única palavra, e não sabia o que precisava ele. Atravessava países pelos sorrisos dos outros e não conhecia o seu ao espelho. Lia o mundo inteiro e tropeçava no escuro de dentro de casa.

E o pior é que nem sabia que era cego. Achava que estava completo — que ler os outros chegava, que cuidar era o suficiente, que quem segura toda a gente não precisa de ser segurado. Aprendeu a encolher os ombros e a dizer «foi só o acaso» quando alguém lhe apanhava um gesto demasiado grande. Aprendeu a estar do outro lado a aplaudir. Achava que era o seu lugar. E talvez fosse — mas era também o seu esconderijo.

Até,
Que a magia lhe bateu à porta, à dele.

Houve um sorriso espontâneo — não o julgou, desculpou-o pela displicência — que pegou no seu dom e o virou ao contrário. Olhou para ele com aquela calma de quem não tinha pressa nenhuma de o decifrar, mas decifrou-o na mesma. Viu o que ele escondia debaixo do homem que cuidava de toda a gente. E disse-o, eximiamente — sem drama, à sua maneira, como quem comenta o tempo — sabes porque gostas tanto de cuidar das pessoas? É porque cura a parte dentro de ti que precisava de alguém que cuidasse de ti.

E depois, mais baixo:
"Deixa-me ser esse sorriso."

Não saberia, ele, explicar o que se parte dentro de um homem que passou a vida a ler os outros quando é, finalmente, lido. É como pousar uma coisa que nem se sabe que se andava a carregar. Pela primeira vez não foi ele a ver — foi ele a ser visto. Não foi um espelho; foi melhor, foi outro sorriso, outra alma, do lado de fora, a dizer-lhe em voz alta o que ele não conseguia ler em si. E foi aí, só aí, que aprendeu a virar o olhar para dentro. Que aprendeu a ler a única alma que lhe tinha escapado a vida inteira.

Fez, naquela noite e nas que vieram, coisas que pensou que nunca faria. Baixou a guarda. Deixou-se cuidar. Ser lido em vez de ler. Coisas que um homem que vive de vigiar jura a si próprio que nunca há-de fazer — e que fez, sem dar por isso, porque finalmente havia alguém do outro lado a dizer-lhe que podia.

Conto-vos isto por uma razão.

O leitor… de almas aprendeu a ler almas no caminho mais longo que há — sozinho, à força, errando muito, cego para dentro durante mais tempo do que devia. Levou anos a perceber o que outra pessoa lhe disse numa frase. E pensou: e se houver por aí alguém a fazer o mesmo caminho às escuras, a ler toda a gente e a tropeçar em si próprio, sem ninguém que lhe diga «deixa-me ser esse sorriso»?

Para esse, deixo o mapa.

Não porque seja um mestre que tudo vê. Pelo contrário — porque foi o cego que aprendeu a ver, e por isso conhece o caminho desde o escuro. O melhor mapa não é o de quem nunca se perdeu. É o de quem se perdeu primeiro, e voltou, e tomou nota de cada curva para que o próximo demore menos.

Os bons exemplos seguem-se. É o que dizem.

Eu, por mim, que observo de fora, deixo só um pequeno reparo: a história de um homem que sabia ler todas as almas menos a sua — e que teve a sorte de encontrar quem lhe lesse a dele.

O resto do caminho, conto-vo-lo nas páginas que se seguem.
Vinde com ele. Talvez cheguem mais depressa do que ele chegou…

(Todos os direitos reservados a Crónicas NM)


Things I Thought I'd Never Do (Live From Annabel's)
JAck Savoretti

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