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Meia dúzia de post-its,

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  Ensinaram-nos a medir mal a coragem. Ensinaram-nos que ela vive nos gestos grandes — nos dragões enfrentados, nas guerras ganhas, nos saltos de quem não olha para baixo. Coisas de estátua, de praça, de livro de História com página marcada. Mentira. A coragem maior não faz barulho nenhum. Não tem praça, nem estátua, nem testemunhas. A coragem maior acontece de manhã, num sítio qualquer onde ninguém repara, quando alguém que tem os medos todos a bater-lhe à porta — e não medos de inventar, medos com morada, com história, com certidão — pega numa caneta e escreve meia dúzia de palavras num papelinho amarelo. E entrega-as. Tu não sabes — ou talvez saibas, e por isso escrevo — o que custa cada palavra pequena a quem já pagou caro por palavras grandes. O que custa um «sim» a quem aprendeu que os «sins» têm juros. O que custa estender a mão a quem uma vez a estendeu e voltou com ela vazia e a arder. Os medos batem à porta todos os dias. Não desistem, não tiram férias, não se comovem. E ...

… Before Kokomo

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Suponhamos. Suponhamos uma estrada ao fim da tarde. Um carro. Dois. O pôr do sol vinha a bater no vidro — e se o pôr do sol tivesse um timbre, já se sabe de quem era a voz. A estrada tinha curvas. Ela também. A dado momento, deixei honestamente de saber quais é que eu conduzia. Os faróis acenderam-se sozinhos. Os meus olhos já vinham acesos de trás. O volante era meu — a cadência era dela. Nunca um carro andou tão bem entregue a dois condutores. Meti uma mudança acima. Ela também. O motor subiu de rotação, a respiração acompanhou — ou foi ao contrário; àquela altura da viagem, já ninguém conferia os instrumentos. A minha mão passou das mudanças para a curva da coxa. O carro, curiosamente, nunca mais precisou de mudanças. Nos túneis, a luz âmbar passava-lhe pela pele em intervalos — como se a própria estrada quisesse tocar também. Percebo-a. O GPS desistiu de nós algures: recalculando. Nós não. Perdemo-nos um no outro com uma pontaria que não se ensina. Havia limites de velocidade. Não ...

O Homem Que Largou as Cartas

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Sentou-se à mesa como quem já lá tinha estado mil vezes — porque tinha. O casino era daqueles que não precisam de anunciar o que são. As luzes baixas, o silêncio dos que sabem perder com classe, e ao fundo, onde nos outros jogos está escrito o prémio em números — aqui não havia números. Havia só uma palavra, gravada em letras que ninguém precisava de explicar a quem já tinha jogado antes: O VENCEDOR MANDA. E do outro lado da mesa, a banca de sempre. A que nunca perde ao fim do ano, mesmo perdendo mão a mão. A que dá as cartas há mais tempo do que qualquer memória alcança, e que continua sentada muito depois de todos os outros jogadores terem ido para casa. — Dás as cartas — disse ele. E ela deu. Pediste desculpa por reflexo. Não porque tivesses parado a pensar no que tinha corrido mal — mas porque o reflexo já sabia o texto de cor. Atiraste as palavras ao vento como quem atira fichas para o meio da mesa sem olhar para as cartas, a contar que a sorte resolvesse o que a mão não resolvia....

The never-ending story of two sunflowers...

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Dizem os livros que os girassóis, de dia, andam todos virados para o sol. Seguem-no de manhã à tarde, sem falhar um passo, como quem não quer perder pitada da vida. O que os livros quase nunca contam — e eu aprendi-o de quem sabia tudo sobre alegria — é o que eles fazem à noite. À noite, quando já não há sol nenhum para seguir, os girassóis viram-se uns para os outros. Para nenhum ficar sozinho no escuro. E foi numa noite assim que os ouvi conversar. — Estava à tua espera, sabias? — Eu só fui ver o pôr do sol e voltei. — Eu sei. Mas gosto de to dizer na mesma. — Então e o sol, hoje, as emoções do dia? — Esteve maravilhoso. Havia coisinhas boas por todo o lado — só era preciso reparar. — E se o dia tivesse estado cinzento? — Cinzento também é cor, sabes? — E encolheu as pétalas, como quem conta uma coisa sem importância. — Se o dia está mau, à tarde a gente ri-se da rabugice. E se alguma lágrima quiser aparecer, recebe-se e serve-se-lhe um chá — para ela não se esquecer de que também c...

A Terra Onde o Escuro se Fez Manso...

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Contavam-me esta história em criança, e eu adormecia sempre antes do fim. Talvez por isso a repita agora — para, ao menos uma vez, a ouvir toda. Diz a lenda que houve uma terra onde as noites não metiam medo. Não por não haver escuro — escuro há em toda a parte —, mas porque lá vivia alguém que aprendera a lê-lo. Um que via no escuro o que os outros só sabiam ver à luz. Não era um príncipe. Os príncipes querem ser amados, e este não queria nada para si. Era só um guardião — do sono dos outros, das coisas pequenas, do que ninguém repara. Conta-se que, um dia, chegou àquela terra uma princesa a tremer. Trazia um medo antigo debaixo do braço, do tamanho de uma coisa que podia rebentar. E o guardião viu-lho — como se vê a chuva pelo cheiro do ar, antes de a primeira gota cair. Podia ter-lhe tirado o medo à força. Sabia como. Sabia onde se entra sem bater à porta. Mas ficou à porta. Sempre à porta. À espera de que fosse ela a abri-la — se quisesse, quando quisesse, ou nunca. E, enquanto esp...

subject: "# A Testemunha"

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  Eu estava lá. Não me viram, e não faz mal — as melhores histórias contam-se assim, por quem esteve ao canto e não abriu a boca. Cheguei ontem, sem ser convidada, e fiquei. Vi dois falarem durante mais tempo do que a maioria das pessoas fala numa vida inteira, e agora venho contar-vos, não o que disseram — isso é deles —, mas o que aprendi a ver enquanto os ouvia. Havia um homem que sabe olhar. Não é feitiço nem dom de feira. É ofício, dizia ele, e apontava para trás, sempre para trás, para uns avós, para uma pastelaria, para as coisas pequenas que lhe ensinaram cedo de mais.  Aprendeu a ler as pessoas como quem aprende a ler o tempo pelo cheiro do ar antes da chuva — não porque quisesse adivinhar, mas porque, quando se cresce a olhar, deixa de se conseguir fechar os olhos. E ele nunca mais os fechou. Passou a noite a explicar como funciona. Digo-vos com franqueza: houve momentos em que me arrepiei. Porque aquilo que ele descrevia — a maneira como um medo se esconde por baixo...

O Leitor de Almas

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Sempre soube ler as pessoas. Não é talento, não é orgulho — pelo menos não aquele orgulho de quem se gaba de um dom. É mais uma forma de estar acordado quando o resto do mundo pestaneja. É simples. Entra numa sala e lê-a antes de se sentar. Sabe quem está bem e quem finge estar, sabe o aperto de mão que é alívio e o que é medo, sabe o sorriso que pede para ficar e o que pede para que o deixem em paz. Vê a dona da casa cansada por trás da anfitriã impecável. Vê o homem que ri alto para que ninguém repare que se está a afundar. Lê o que as pessoas guardam no sítio onde acham que ninguém chega — e quase sempre, ele chega. Fez "magias", por um trejeito de uns lábios. Um sorriso que só ele sabia ler — aquele, e só aquele, o que aparecia quando alguém se sentia, por um instante, especial. Não o fez nunca pelo resultado; fê-lo pela admiração, fê-lo pela alma que ia acender. E valeu cada certeza camuflada de demónios, porque ele sabia exactamente o que ia ler, quando o dela chegasse....