Beautiful girl,

 




Visitei o "nosso mundo", aquele verão que não avisou, onde o teu querer continua a correr livremente pelas vontades dos momentos, onde a esperança embriagada pela emoção, aguarda o tão afamado final que de forma terna e olhar honesto diz "Fica comigo".
 
Continuo a trazer as chaves desse "nosso mundo" no bolso, junto com as que abrem portas de dias profanos.
 
Sacudi-lhe o pó, tirei os lençóis que cobriam suavemente todos os sentires, desculpei as estrelas que acabaram adormecendo, vítimas do cansaço sentenciado pela espera.
 
Vê só, julguei por uma milésima de vida que me ia cruzar contigo, que nem que fosse ao longe te ia reconhecer, que te ia ver a cuidares daquele pequeno cantinho, como quem cuida de algo especial, de uma planta que se põe ao sol, para que a sua beleza seja mais evidente.
 
Que estupidez a minha, o tempo não volta, e tu terás outros afazeres.

Sentei-me naquela poltrona estrategicamente colocada junto à janela, onde de quando em vez ainda te vejo ao meu lado, com a cabeça encostada no ombro e o pensamento na felicidade.
 
Senti-lhe o toque, aquele aveludado, suave, único, e o cheiro a coco, a verão, a ti, tomou, à revelia, conta do espaço.
 
Há pessoas que não se explicam.
Não pela complexidade — mas, pela simplicidade. Pela forma como chegam sem aviso e ficam sem permissão.
 
Há um tipo de presença que não ocupa espaço — instala-se, como se fosse tudo delas.
Naquele lugar entre o peito e a respiração onde as coisas importantes costumam guardar-se.
 
Passei os olhos por aquele álbum de recordações que apesar do tempo e do desgaste dos dissabores das escolhas, continua meticulosamente guardado na mesa da frente.
 
Confirmei a singularidade do teu sorriso, melhor, dos teus sorrisos, do que fazes quando estás feliz, do quando estás nervosa, ansiosa, mas principalmente daquele que fazias exclusivamente para mim.

Lembro-me sempre dos detalhes pequenos. 
Não dos momentos épicos — esses toda a gente guarda.
 
Os outros. Os que ninguém vê. O que se nota quando ninguém está a notar.
O que se faz sem pensar porque a outra pessoa importa mais do que o momento.
 
Há algo raro nisso — em ver alguém de verdade.
Não o que mostram. O que são. O que carregam sem dizer. O que precisam sem pedir.
 
E há pessoas que quando são vistas assim — pela primeira vez, talvez estupefactas — fiquem com aquele olhar.
Aquele que diz: "não estava à espera" e ao mesmo tempo "era isto".
 
Acredito em pessoas assim. Sempre acreditei.
 
Naquelas que têm mais dentro do que mostram — mais coragem, mais luz, mais valor do que alguma vez lhes disseram.
 
E há qualquer coisa de muito especial em ser aquele que vê isso primeiro. Ou aquele que nunca deixou de ver.
 
Espreitei outra vez pela janela e ia jurar que entre as tralhas da vida, nos encontrei — a lutar pelo nosso sentir, a querer que o tempo voltasse, nem que fosse só por um pouquinho, para matar saudades.
 
O tempo passou. As vidas foram sendo o que as vidas são — cheias de escolhas que a gente faz e algumas que nos fazem a nós.
 
Mas há cruzamentos que mudam a direcção de tudo.
Setas e sentidos que nos encaminham para sentimentos que não se percebem logo.

Percebem-se depois, quando se olha para o que se é e se reconhece o que foi construído — e se sabe exactamente onde começou.
 
Porque há coisas que o tempo não apaga — não porque sejam teimosas, mas porque são verdadeiras.
 
E a verdade guarda-se sozinha.
Há sabores que ficam. Não na memória — mais fundo.
 
Naquele lugar que não tem nome, mas que toda a gente reconhece quando alguém chega e pergunta: "-porque ainda te lembras de mim?"
 
Porque há mil e uma razões.
Mas a primeira é sempre a mesma — porque há setas que, independentemente do caminho, apontavam sempre para o mesmo sentimento.
 
E por breves instantes sorri — o mundo, o outro, o das chatices e enfadonho, simplesmente parou, deixou de fazer sentido, e a saudade perdeu as estribeiras, galopando desbragadamente pela vontade de voltar àqueles tempos.
 
Beautiful girl, Princesa Andaluza, ainda há momentos que têm o teu nome sem eu ter dito nada.

E algures, nisto tudo, neste mundo que constantemente (re)inventamos, ou numa noite de música alta e gente demais à volta — haverá sempre o momento, aquela efémera circunstância em que a tua voz entoa e o coração acelera.
 
Haverá sempre alguém que se lembra de ti.
 
Terás sempre o teu lugar. 
Mesmo que fique vazio — está lá. Reservado. 
Na primeira fila.
 
E naquele instante em que tudo o que existia era aquilo — o silêncio cúmplice, o peso suave da memória, e um sorriso que o mundo lá fora, com os seus dias de agasalhos e agendas cheias, nunca conseguiria apagar.
— Enquanto passageira e cuidadosamente fechava a porta desse "nosso mundo",
 
Tu, Hum — Tu, de forma subtil, tímida, mas solene confessavas descuidadamente: "— Gostei!"

(Todos os direitos reservados CronicasNM)

Closing Time
Semisonic

 

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