O Homem Que Largou as Cartas
Sentou-se à mesa como quem já lá tinha estado mil vezes — porque tinha.
O casino era daqueles que não precisam de anunciar o que são. As luzes baixas, o silêncio dos que sabem perder com classe, e ao fundo, onde nos outros jogos está escrito o prémio em números — aqui não havia números. Havia só uma palavra, gravada em letras que ninguém precisava de explicar a quem já tinha jogado antes:
O VENCEDOR MANDA.
E do outro lado da mesa, a banca de sempre. A que nunca perde ao fim do ano, mesmo perdendo mão a mão. A que dá as cartas há mais tempo do que qualquer memória alcança, e que continua sentada muito depois de todos os outros jogadores terem ido para casa.
— Dás as cartas — disse ele.
E ela deu.
Pediste desculpa por reflexo. Não porque tivesses parado a pensar no que tinha corrido mal — mas porque o reflexo já sabia o texto de cor. Atiraste as palavras ao vento como quem atira fichas para o meio da mesa sem olhar para as cartas, a contar que a sorte resolvesse o que a mão não resolvia.
Deste por garantida a minha presença. Achaste que o agora seria sempre agora — que as palavras, uma vez ditas, ficavam para sempre com o valor que tinham no momento em que saíram, como se um ás não pudesse valer um em vez de onze consoante o resto da mesa.
Julgaste que eu ia continuar a jogar contigo pelas mesmas regras, para sempre, só porque tinha jogado até ali.
Ela não trapaceia. Nunca precisou. Ganha porque tem mais tempo do que qualquer jogador, e porque cada mão que se perde é só isso — uma mão. Não é a última. Nunca é a última, até ser.
Foi ela que me ensinou a diferença entre uma desculpa e um acerto de contas. A desculpa é o que se diz para se poder continuar sentado à mesa sem mudar nada. O acerto é o que custa — e por isso é raro.
Contei-te cada desculpa. Cada pedido. Cada "foi sem querer". Achei, ingénuo, que juntas fariam a ponte que uma verdade só não conseguia fazer. Eram pretensões. Caíam no vazio da mesma forma que uma ficha cai numa mesa vazia — com barulho, sem consequência.
Vi-te, noutra noite, pedir desculpa a outra pessoa. As mesmas palavras. O mesmo jeito de inclinar a cabeça. E continuavam a não saber a verdade — porque a verdade não se repete de cor. A verdade, quando é verdade, sai sempre desarrumada.
E ainda assim não te invejei o que julgaste que eu ia invejar. A única coisa que sobrou foi a inveja de outros sorrisos que descobri — sorrisos que não precisavam de ser conquistados às cartas, que já vinham dados desde o início, sem se ter de arriscar nada por eles.
Cansei-me das promessas embrulhadas em papel fino de mais para o peso que diziam carregar. Vi-as ficarem frágeis à primeira mão que corresse mal, transformarem-se no fantasma daquilo que juravam ser quando ainda estavam por dizer.
Aprendi a deixar ir — não as memórias, que essas eu recuso largar, porque não têm culpa de nada. O que aprendi a deixar ir foram as sirenes. As desculpas que soam a aviso de que a coisa vai voltar a acontecer, e que eu já não quero ouvir, porque já sei a melodia de cor e já sei onde é que ela costuma dar.
E chegou a mão em que ela olhou para mim, como olha sempre — sem pressa, porque nunca teve pressa nenhuma — e perguntou se eu queria mais uma carta.
Eu tinha o suficiente para ganhar. Sabia-o com aquela certeza rara que só aparece uma ou duas vezes na vida, a certeza de quem conta as cartas na mesa e sabe, sem margem, que aquela mão era sua.
O vencedor manda. Estava ali, escrito, à espera de ser levado.
E foi então que percebi que ganhar aquele jogo não era ganhar coisa nenhuma — era só continuar sentado, para sempre, à mesa de alguém que nunca ia deixar de dar cartas, nunca ia deixar de exigir mais uma mão, mais uma noite, mais uma desculpa embrulhada em papel fino.
Podia ficar a mandar. Mas mandar em quê? Numa mesa onde já nem sabia se jogava para ganhar ou só para não ter de se levantar.
Pousei as cartas.
Não as atirei — pousei-as, devagar, com o mesmo cuidado com que se pousa uma coisa que se respeitou. A banca ficou a olhar para a mão que eu não usei, e pela primeira vez em muito tempo não disse nada.
Porque não havia nada a dizer. O jogo não se ganha nem se perde quando alguém decide, simplesmente, que já não quer saber do resultado — quer saber é do resto da noite, do resto dos anos, do resto do que há para viver fora daquela mesa.
Vi-te, noutra noite, pedir desculpa a outra pessoa. As mesmas palavras. O mesmo jeito de inclinar a cabeça. E continuavam a não saber a verdade — porque a verdade não se repete de cor. A verdade, quando é verdade, sai sempre desarrumada.
E ainda assim não te invejei o que julgaste que eu ia invejar. A única coisa que sobrou foi a inveja de outros sorrisos que descobri — sorrisos que não precisavam de ser conquistados às cartas, que já vinham dados desde o início, sem se ter de arriscar nada por eles.
Cansei-me das promessas embrulhadas em papel fino de mais para o peso que diziam carregar. Vi-as ficarem frágeis à primeira mão que corresse mal, transformarem-se no fantasma daquilo que juravam ser quando ainda estavam por dizer.
Aprendi a deixar ir — não as memórias, que essas eu recuso largar, porque não têm culpa de nada. O que aprendi a deixar ir foram as sirenes. As desculpas que soam a aviso de que a coisa vai voltar a acontecer, e que eu já não quero ouvir, porque já sei a melodia de cor e já sei onde é que ela costuma dar.
E chegou a mão em que ela olhou para mim, como olha sempre — sem pressa, porque nunca teve pressa nenhuma — e perguntou se eu queria mais uma carta.
Eu tinha o suficiente para ganhar. Sabia-o com aquela certeza rara que só aparece uma ou duas vezes na vida, a certeza de quem conta as cartas na mesa e sabe, sem margem, que aquela mão era sua.
O vencedor manda. Estava ali, escrito, à espera de ser levado.
E foi então que percebi que ganhar aquele jogo não era ganhar coisa nenhuma — era só continuar sentado, para sempre, à mesa de alguém que nunca ia deixar de dar cartas, nunca ia deixar de exigir mais uma mão, mais uma noite, mais uma desculpa embrulhada em papel fino.
Podia ficar a mandar. Mas mandar em quê? Numa mesa onde já nem sabia se jogava para ganhar ou só para não ter de se levantar.
Pousei as cartas.
Não as atirei — pousei-as, devagar, com o mesmo cuidado com que se pousa uma coisa que se respeitou. A banca ficou a olhar para a mão que eu não usei, e pela primeira vez em muito tempo não disse nada.
Porque não havia nada a dizer. O jogo não se ganha nem se perde quando alguém decide, simplesmente, que já não quer saber do resultado — quer saber é do resto da noite, do resto dos anos, do resto do que há para viver fora daquela mesa.
Levantei-me.
Porque se abrir mão deste amor é viver, então eu estou cansado deste jogo.
Suspicious Minds
Angelina Jordan

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