Onde poucos tocam
Há gestos que não se contam a ninguém, confessam-se.
Cheguei a travessar um país, uma noite, em silencio como sempre para não espantar surpresa, por um pequeno trejeito dos teus lábios aquele que fazias quando te sentias especial por eu confessar o quanto te queria e assim distinguir o inferno do céu e alegria da dor. Não pelo objecto que era pequeno apenas um pequeno bónus que um corriqueiro jornal oferecia — talvez, pelo momento que carregava com ele, sem fazeres a mínima ideia do que “o eu hoje tenho que sair a hora, dizia”, valeu cada milha de alcatrão, como valeu todos os outros acasos, só para te ver sorrir, sem truques de mangas, ou verdades escondidas apenas o teu sorriso, aquele de um primeiro grande Amor. Guardei coisas tuas em sítios que só eu sabia. E quando me perguntavas como, eu encolhia os ombros como se fosse só o acaso, e talvez fosse só o acaso, o caso de nos termos cruzado de eu ter pensado “tem piada” e esse "tem piada" ter-se transformado espontaneamente naquele nosso mundo. E sabes uma coisa eu tinha. Tinha os contactos de todos esses acasos, os acasos de quem te olhava e sabia, ao milímetro, o que te faria sorrir.
Nunca te disse o tamanho de nada disto. Porque o que vale num gesto não é o que ele custou — é que tu nunca soubesses que custou. Deixar-te só a parte bonita, e ficar eu com o resto, calado, do lado de fora, nunca te conterei como foram os bastidores de como eram cuidados todos aqueles acasos, há magias que não se revelam, guardam-se, como se guarda aquele querer que não soube falar - o meu, porque o teu - esses até os silêncios tinham legendas.
· · ·
Podia ter feito mais. Poderia, podia ter usado tudo o que sei do coração das pessoas para te levar para onde eu te desejava. Sei fazê-lo. Faço-o todos os dias, a vida obriga-me a sentar-me à mesa e saber utilizar as cartas que me foram dadas, noutras salas, noutros mundos, por outras razões, mas sempre pela razão certa e é essa razão, a certa que me levaram a nunca o ser contigo, nunca. Nem uma vez. Porque havia uma linha, e do outro lado dessa linha tu deixavas de escolher e passavas a ser levada. E um amor levado não é um amor — é um roubo com boas maneiras.
É só por isto que eu posso dizer, sem mentir a mim próprio, que te amei. Não porque o senti — toda a gente jura que sente. Porque, podendo ter-te, não te tomei. Deixei que os acasos criassem vontade própria e eles próprios abrissem a porta e dessa forma nunca te empurrei para dentro. Esperei. E como esperar era a única forma de te amar de verdade, esperei sem conta, e não me arrependo de um único dia.
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Não fiquei. Sei disso. Era urgente respirar...
Mas há uma coisa de que tenho a certeza, e que me vale mais do que ter ficado: que um dia, em qualquer lado, alguém diz o meu nome ao pé de ti — e tu, sem pensar, sorris e dizes «...era especial».
Foste especial sem nunca teres dado por isso, ou por outra deste, mas se calhar sem a real consciência. Tão especial que o foste no escuro, sem plateia, sem saberes que o eras. E se calhar — talvez nunca o tenhas sabido —que foram aqueles momentos, aqueles teus queres tímidos, que me ensinaram que o amor não é o que se toma. É o que se respeita.
Por isso, hoje, no aqui e no agora, não te peço nada, perdi esse direito naqueles olhos de desilusão que me resumiram ao mundano dos pecados.
E talvez, por isso, apenas continuo a cuidar dos pequenos gestos para te ver sorrir. E desejar que dês um jeitinho de seres especial outra vez — não como foste comigo, mas onde quer que estejas, com quem quer que seja. Porque essa luz era tua. Nunca foi minha. Eu só tive a sorte de a ver acender.
(Todos os direitos reservados a Crónicas NM)
Cold
Jonathan Roy ft Richaredson (Chris Stapleton Cover)

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