A Dança de Vestido
Há danças que têm o propósito de chegar a algum lado.
E há esta, esta assim contigo.
Que não vai a lado nenhum, e é esse o ponto. Não tem destino, não tem pressa, não tem fim previsto na garganta de quem a dança.
É só o swing — é só a minha mão nas tuas costas, a tua testa quase junta ao meu queixo, e dois a balançar num compasso que mais ninguém ouve. Devagar. Como quem tem a noite toda e nenhuma intenção de a gastar a correr.
E desejaram-se. Claro que se desejaram. Sentiu-se no ar à volta, naquele meio-centímetro que separa um corpo do outro e que ninguém se atreve a fechar, porque fechá-lo seria acabar — havia fome ali. Havia desejo, mas dos que escolhem sentarem-se à mesa, só pelo prazer, sem trocas ou entregas. A roupa? Essa fica, por agora. Porque é vestidos que os olhos falam melhor, que dizem tudo, esse tudo que o anseio deseja.
Porque existiu sempre uma mentira antiga que nos vendem como verdade: a displicência de que o desejo é uma porta, e que amar é abri-la depressa. Que se chega ao outro como se corre para um autocarro — empurra-se, força-se, e pronto, lá dentro.
Mas a alma, a alma que comanda os desejos que a libido procura, essa não tem fechadura que se arrombe. Podes, por lotaria do destino, teres o corpo de alguém, por inteiro, ou por pedaços. Mas nunca ter entrado naquele mundo encantado em que o sorriso te abre a porta.
A alma não se abre com um pé de cabra. Abre-se por dentro, com cuidado e só quando quer, e só a quem teve a paciência de dançar à porta sem bater.
É por isso que esta dança, aquela dança vestida, será porventura a mais difícil de todas. Qualquer um arromba. Poucos cuidam.
E ao sabor da música que se arrasta pelas notas do saxofone, descobre-se que o amor não se mede aos palmos. Nem tão-pouco se mede no tamanho do gesto, ou no peso da prenda, na contagem das noites. E muito menos se mede nos dias maus — nesses dias em que apetecia atirar tudo à cara, em que o corpo está cansado e a paciência curta, e mesmo assim a mão continua nas costas dela e o compasso não pára. É aí que se vê. Não no fogo — o fogo é fácil. Vê-se na dança que continua quando já não havia obrigação nenhuma de dançar.
Há quem passe a vida a despir pessoas à procura de uma que nunca encontra. E há quem perceba, um dia, que a única dança que vale a pena é aquela em que se fica — vestido, desejando, sem pressa nenhuma de acabar. Aquela dança com quem nos despe a alma antes de despir a roupa.
Aquela dança que sussurrava
«Ficava nesta dança contigo para sempre.»
E o «para sempre», aqui, talvez seja exagero de canção.
Talvez seja só a verdade de quem já não procura a saída.
(Todos os direitos reservados Crónicas NM)
Wiked Game
Lusaint (cover)

Comentários