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A mostrar mensagens de agosto, 2026

Meia dúzia de post-its,

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  Ensinaram-nos a medir mal a coragem. Ensinaram-nos que ela vive nos gestos grandes — nos dragões enfrentados, nas guerras ganhas, nos saltos de quem não olha para baixo. Coisas de estátua, de praça, de livro de História com página marcada. Mentira. A coragem maior não faz barulho nenhum. Não tem praça, nem estátua, nem testemunhas. A coragem maior acontece de manhã, num sítio qualquer onde ninguém repara, quando alguém que tem os medos todos a bater-lhe à porta — e não medos de inventar, medos com morada, com história, com certidão — pega numa caneta e escreve meia dúzia de palavras num papelinho amarelo. E entrega-as. Tu não sabes — ou talvez saibas, e por isso escrevo — o que custa cada palavra pequena a quem já pagou caro por palavras grandes. O que custa um «sim» a quem aprendeu que os «sins» têm juros. O que custa estender a mão a quem uma vez a estendeu e voltou com ela vazia e a arder. Os medos batem à porta todos os dias. Não desistem, não tiram férias, não se comovem. E ...

… Before Kokomo

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Suponhamos. Suponhamos uma estrada ao fim da tarde. Um carro. Dois. O pôr do sol vinha a bater no vidro — e se o pôr do sol tivesse um timbre, já se sabe de quem era a voz. A estrada tinha curvas. Ela também. A dado momento, deixei honestamente de saber quais é que eu conduzia. Os faróis acenderam-se sozinhos. Os meus olhos já vinham acesos de trás. O volante era meu — a cadência era dela. Nunca um carro andou tão bem entregue a dois condutores. Meti uma mudança acima. Ela também. O motor subiu de rotação, a respiração acompanhou — ou foi ao contrário; àquela altura da viagem, já ninguém conferia os instrumentos. A minha mão passou das mudanças para a curva da coxa. O carro, curiosamente, nunca mais precisou de mudanças. Nos túneis, a luz âmbar passava-lhe pela pele em intervalos — como se a própria estrada quisesse tocar também. Percebo-a. O GPS desistiu de nós algures: recalculando. Nós não. Perdemo-nos um no outro com uma pontaria que não se ensina. Havia limites de velocidade. Não ...

O Homem Que Largou as Cartas

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Sentou-se à mesa como quem já lá tinha estado mil vezes — porque tinha. O casino era daqueles que não precisam de anunciar o que são. As luzes baixas, o silêncio dos que sabem perder com classe, e ao fundo, onde nos outros jogos está escrito o prémio em números — aqui não havia números. Havia só uma palavra, gravada em letras que ninguém precisava de explicar a quem já tinha jogado antes: O VENCEDOR MANDA. E do outro lado da mesa, a banca de sempre. A que nunca perde ao fim do ano, mesmo perdendo mão a mão. A que dá as cartas há mais tempo do que qualquer memória alcança, e que continua sentada muito depois de todos os outros jogadores terem ido para casa. — Dás as cartas — disse ele. E ela deu. Pediste desculpa por reflexo. Não porque tivesses parado a pensar no que tinha corrido mal — mas porque o reflexo já sabia o texto de cor. Atiraste as palavras ao vento como quem atira fichas para o meio da mesa sem olhar para as cartas, a contar que a sorte resolvesse o que a mão não resolvia....