The never-ending story of two sunflowers...
Dizem os livros que os girassóis, de dia, andam todos virados para o sol. Seguem-no de manhã à tarde, sem falhar um passo, como quem não quer perder pitada da vida.
O que os livros quase nunca contam — e eu aprendi-o de quem sabia tudo sobre alegria — é o que eles fazem à noite. À noite, quando já não há sol nenhum para seguir, os girassóis viram-se uns para os outros.
Para nenhum ficar sozinho no escuro.
E foi numa noite assim que os ouvi conversar.
— Estava à tua espera, sabias?
— Eu só fui ver o pôr do sol e voltei.
— Eu sei. Mas gosto de to dizer na mesma.
— Então e o sol, hoje, as emoções do dia?
— Esteve maravilhoso. Havia coisinhas boas por todo o lado — só era preciso reparar.
— E se o dia tivesse estado cinzento?
— Cinzento também é cor, sabes? — E encolheu as pétalas, como quem conta uma coisa sem importância. — Se o dia está mau, à tarde a gente ri-se da rabugice. E se alguma lágrima quiser aparecer, recebe-se e serve-se-lhe um chá — para ela não se esquecer de que também consegue ser alegre. Basta acreditar que é uma lágrima de alegria.
— Tu fazias isso a tudo.
— E tu foste aprendendo. Devagarinho, mas foste. — E riu-se, daquele riso que desmontava qualquer um. — Lembras-te da noite do karaoke?
— Se lembro. Saímos de lá com o prémio de pior interpretação.
— E viemos a cantar pelo caminho todo.
— Foi o dia em que eu cantei melhor em toda a minha vida.
Ficaram um bocadinho calados, naquele silêncio que só as flores têm, e quem se ama.
— Qual daquelas estrelas achas que tem o tamanho dos nossos sonhos?
— Já te disse: nenhuma chega. Era preciso juntar umas quantas.
— Convencido.
— Aprendi com a melhor.
O vento passou devagar, a arrumar a noite.
— Posso perguntar-te uma coisa? — disse ela, mais baixinho. — Porque é que me beijavas sempre como se fosse a última vez?
— Não era por medo. É que é assim que se trata algo especial. Sempre.
— E quando deixou de ser «como se»… — não acabou a frase. Não era preciso.
— Valeu na mesma. Valeu cada segundo. Tu conseguiste que até esse peso se suportasse.
— Foi só a verdade. Naquele tempo, a verdade era tudo o que nos restava — as conversas, aquele amor, o darmo-nos ali. E olha que chegou. Chegou e sobrou.
— Sobrou. Porque não ficou nenhum beijo por dar, nenhum sentimento por sentir, não ficou sequer uma palavra por dizer. Sobrou porque nunca faltou, porque teve sempre um pouco mais de ti, do teu toque, do passo das tuas danças em volta do Sol, do ajudas-me a ter coragem — e tu ajudaste, ajudaste com a doçura de quem compreende que uma cabeça nas nuvens é apenas sinónimo de um bolso cheio de sonhos.
Porque mesmo que o destino destine, no final das contas foi o querer que sempre o controlou a ele...
— E quando uma manhã o sol nascer e um de nós já cá não estiver?
— …
— Promete-me que te viras para o sol na mesma. A vida merece — e eu sei do que falo, que ninguém quis viver como eu quis.
— E à noite?
— À noite é fácil. À noite viras-te para mim, como sempre. Os girassóis não precisam de se ver para se encontrarem.
E, hoje há um girassol que, de dia, olha o sol com os olhos um bocadinho tristonhos. É o preço — quem amou paga em saudade, e paga de bom grado.
E o mundo, desde que ela partiu, ficou um bocadinho mais pálido. Não mais escuro — mais pálido. Porque ela era quem pintava os cinzentos, quem servia chá às lágrimas, quem fazia falta sem dar nas vistas, como fazem as cores.
Mas à noite, quando o mundo julga que ele se vira para o vazio, ele sorri.
Porque do outro lado está ela. Está no sorriso de uma miúda cada vez mais parecida com a mãe. Está nos mil balões que ainda andam por aí a subir. Está em todas as coisinhas boas que continuam a acontecer a quem repara — e em todos os cinzentos que, por causa dela, nunca mais foram só cinzentos.
E virados um para o outro, como ela ensinou, nenhum fica sozinho no escuro.
E... Está tudo bem. Prometo.
(Todos os direitos reservados a Cronicas NM)
Give to Live (live)
Van Halen

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