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A mostrar mensagens de maio, 2026

À tua espera

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  Há segredos que não cabem numa frase. Que existem antes de terem nome. Como voos que sabem que há um lugar — mas que a rota a vida não deixou encontrar ainda. Há-os que respiram devagar — pacientes, persistentes, com aquela teimosia silenciosa das coisas que sabem que o seu tempo vai chegar. Este é um deles. Há um segredo dentro do segredo. A crescer. A ansiar pelo teu toque. A aguardar o teu cheiro. A guardar o teu olhar naquele lugar onde as coisas importantes não se perdem — mesmo quando tudo o resto muda, mesmo quando o tempo passa, mesmo quando a vida acontece à volta e finge que nada disto existe. Mas existe. Sempre existiu. Naquele lugar onde as palavras que não se disseram em voz alta foram parar. Onde ficaram os olhares que duraram um segundo a mais. Os silêncios que pesavam da forma certa. As madrugadas em que se escreve o que o dia não deixa dizer. Tudo isso existe algures. À tua espera. E um dia — pode ser hoje, pode ser daqui a um ano, pode se...

Beautiful girl,

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  Visitei o "nosso mundo", aquele verão que não avisou, onde o teu querer continua a correr livremente pelas vontades dos momentos, onde a esperança embriagada pela emoção, aguarda o tão afamado final que de forma terna e olhar honesto diz "Fica comigo".   Continuo a trazer as chaves desse "nosso mundo" no bolso, junto com as que abrem portas de dias profanos.   Sacudi-lhe o pó, tirei os lençóis que cobriam suavemente todos os sentires, desculpei as estrelas que acabaram adormecendo, vítimas do cansaço sentenciado pela espera.   Vê só, julguei por uma milésima de vida que me ia cruzar contigo, que nem que fosse ao longe te ia reconhecer, que te ia ver a cuidares daquele pequeno cantinho, como quem cuida de algo especial, de uma planta que se põe ao sol, para que a sua beleza seja mais evidente.   Que estupidez a minha, o tempo não volta, e tu terás outros afazeres. Sentei-me naquela poltrona estrategicamente colocada junto à janela, onde de quando em vez a...

Um Verão Sem Aviso

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  Há memórias que não chegam em ordem. Chegam como o verão — de repente, com cheiro a protector solar e música e aquela sensação de que o tempo parou só para ti. Foi assim que começou. Numa noite longa, numa sala escura com música alta e paredes que vibravam — daquelas noites em que o ar transpira possibilidades e toda a gente sabe que qualquer coisa pode acontecer. A música, como que por destino, dizia tudo o que não se tinha coragem de dizer — e entre os respirares e cumplicidades, alguém teve mais coragem que o medo. All fired up. Já não importa quem foi primeiro — porque há coisas que quando acontecem parecem ter sempre existido, como se o mundo antes delas fosse apenas um rascunho.  Como se já nos conhecêssemos de qualquer lugar que não conseguimos nomear. Lembro o calor primeiro. Não o do sol — o outro. O que não tem estação, mas escolheu o verão para aparecer. Era junho ainda — aquelas noites que a cidade guarda para quem não quer ir para casa, esplanadas cheias de gent...

Um gatilho ainda não premido,

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Havia uma hora naquela noite que não devia existir. Uma daquelas horas que a cidade guarda escrupulosamente para os que não têm medo do escuro — ou para os que tendo — vão na mesma. Ele deu o primeiro passo. Ou foi ela. Já ninguém se lembra, e isso é apenas um pormenor que simplesmente não importa — porque quando estão juntos a ordem das coisas deixa de fazer sentido. O bar respirava música a baixo volume, fumo velho, e aquela cumplicidade silenciosa dos que escolheram a noite como destino. E como quem se entrega sem conselhos ou defesas, aconteceu — como sempre começa entre eles. Sem aviso. Sem cerimónia. Um olhar. Só isso. Mas do tipo que cativa, que prende com uma dormência psicótica, do tipo que não pergunta — declara . Ela com o copo suspenso a meio caminho da boca, os olhos fixos nele com uma calma que era tudo menos serena. Uma tempestade parada. Um gatilho ainda não premido, um querer que incendeia. Ele como quem não tem pressa — porque quem procura o sabo...

Life on Mars ain't just a song!

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    "Há coisas que não se procuram — simplesmente aparecem, como se sempre tivessem estado à espera do momento certo. A gaveta abriu-se quase por engano, e ali estava ela. Dobrada, paciente, com aquela letra inconfundível que só eu conheço, cada traço que só a minha mão direciona. Peguei nela com a estranheza de quem segura algo familiar que não devia existir. Li o nome. Era o meu. Mas quem a escreveu... ainda não sou eu."   Meu Rapaz, meu bom rapaz com essa força peculiar, pelo que tens andado a lutar? Quem te ensinou a ter esse medo do que não conheces?   E essa testa franzida? Que sei que fazes quando alguma coisa não encaixa, e agora, certamente, não será exceção — já a conheço bem. Melhor do que pensas, aliás. Porque já estive aí, no mesmo lugar que ocupas agora, com o mesmo peso que carregas neste momento. Aquele silêncio que trazes dentro do peito e que teimas em chamar de força.  Aquela vontade de desaparecer um pouco, só para ver se alguém daria cont...

Antes que o Mundo Dê Conta,

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  Há palavras que se formam devagar, como nuvens que não chegam a ser chuva. Ficam ali, suspensas, entre o peito e a boca, à espera de uma coragem que — descobrimos tarde demais — nunca chegou a aparecer quando mais importava. Pensei em chamar-te. Cheguei mesmo a ponderar a loucura de te procurar, em te ligar, a procurar o teu nome, a ensaiar em silêncio qualquer coisa parecida com  foge comigo . Mas já era tarde — ou demasiado cedo — e tu estavas longe demais para que as palavras chegassem inteiras. E mesmo assim, o pensamento teimou em ficar. Como sempre ficou. Porque há uma diferença enorme entre saber que não dá e conseguir acreditar nisso. E eu, confesso, nunca fui bom a acreditar no impossível quando ele tem o teu sorriso. Fomos assim durante tanto tempo — dois mundos que se atraíam sem se poder tocar. Não por falta de querer, isso nunca faltou. Faltou espaço. Faltou coragem. Faltaram as circunstâncias certas que nunca se alinharam completamente. Havia sempre algué...

Até Daqui a Pouco

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De todas as memórias que guardo de ti, há uma que surge sempre primeiro: sentado ao teu lado, enquanto tu lias o jornal, naquela típica pastelaria da avenida e a forma como saboreavas o teu café. Não percebia grande coisa do que estava escrito naquelas páginas — mas tu sabias isso. E por isso deslizavas, com aquela calma que era só tua, o suplemento na minha direção. As sete diferenças. Um jogo de criança, pensava eu. Só mais tarde percebi que não era bem isso. Estavas a ensinar-me a olhar devagar. A não deixar passar o que parece igual, mas não é. A vida, afinal, é cheia de diferenças que só se veem quando se presta atenção. Ensinaste-me assim — sem que eu desse conta de que estava a aprender. Foste tu que me contaste do D'Artagnan com aquela voz que tornava tudo maior, dando ênfase ao um por todos e todos por um como se fosse uma promessa e não apenas uma frase. Foste tu que me mostraste Don Quijote — aquele homem desajeitado que corria atrás de sonhos impossíveis — e que nunca ...