À tua espera
Há segredos que não cabem numa frase. Que existem antes de
terem nome.
Como voos que sabem que há um lugar — mas que a rota a vida
não deixou encontrar ainda.
Há-os que respiram devagar — pacientes, persistentes, com
aquela teimosia silenciosa das coisas que sabem que o seu tempo vai chegar.
Este é um deles.
Há um segredo dentro do segredo.
A crescer.
A ansiar pelo teu toque. A aguardar o teu cheiro. A guardar
o teu olhar naquele lugar onde as coisas importantes não se perdem — mesmo
quando tudo o resto muda, mesmo quando o tempo passa, mesmo quando a vida
acontece à volta e finge que nada disto existe.
Mas existe.
Sempre existiu.
Naquele lugar onde as palavras que não se disseram em voz
alta foram parar. Onde ficaram os olhares que duraram um segundo a mais. Os
silêncios que pesavam da forma certa. As madrugadas em que se escreve o que o
dia não deixa dizer.
Tudo isso existe algures.
À tua espera.
E um dia — pode ser hoje, pode ser daqui a um ano, pode ser
numa tarde qualquer em que não estavas à espera — vais perceber — de uma vez.
Como quando uma música que sempre existiu finalmente
encontra o momento certo para te partir ao meio — e perguntas como é que alguma
vez viveste sem saber que era assim.
Os segredos que valem a pena não se contam.
Escrevem-se.
E este, espera por ti.

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