Um Verão Sem Aviso

 



Há memórias que não chegam em ordem.

Chegam como o verão — de repente, com cheiro a protector solar e música e aquela sensação de que o tempo parou só para ti.

Foi assim que começou. Numa noite longa, numa sala escura com música alta e paredes que vibravam — daquelas noites em que o ar transpira possibilidades e toda a gente sabe que qualquer coisa pode acontecer.

A música, como que por destino, dizia tudo o que não se tinha coragem de dizer — e entre os respirares e cumplicidades, alguém teve mais coragem que o medo.

All fired up.

Já não importa quem foi primeiro — porque há coisas que quando acontecem parecem ter sempre existido, como se o mundo antes delas fosse apenas um rascunho. 

Como se já nos conhecêssemos de qualquer lugar que não conseguimos nomear.

Lembro o calor primeiro. Não o do sol — o outro. O que não tem estação, mas escolheu o verão para aparecer.

Era junho ainda — aquelas noites que a cidade guarda para quem não quer ir para casa, esplanadas cheias de gente que finge que o tempo não passa, copos que se encontram sem motivo e se tornam desculpa para ficar mais um pouco.

Havia uma playlist que ninguém escolheu e toda a gente cantava. 
Havia aquele riso — esse riso — que cortou o barulho todo como se o resto não existisse.

O clima ia subindo ao sabor do novo. Ou ao sabor dela. Ou dele. 
Não importa — porque a partir daí a ordem das coisas deixou de fazer sentido.

Julho chegou sem pedir licença e trouxe consigo a praia, a areia quente nas costas às duas da manhã, aquela conversa que começou sobre nada e acabou em tudo.

Lugares onde as ondas faziam barulho suficiente para que as palavras mais importantes fossem ditas a centímetros do ouvido.

E havia sal — nos lábios, na pele, em tudo — e havia aquela leveza de quem percebe que está a viver qualquer coisa que vai querer lembrar.

Grava isto — pensou. Grava tudo. E gravou. 
Sem câmara, sem filtro — só com aquela parte do peito que guarda o que a cabeça esquece.

Houve mensagens escondidas entre folhas de papel. Sinais pequenos que só faziam sentido para dois. 
Um símbolo deixado onde só um par de olhos certos o ia encontrar — num para-brisas numa tarde de praia, numa nota junto a um documento, numa palavra no meio de um texto que parecia escrito para o mundo, mas era, na verdade, escrito para uma pessoa só.
Ela soube sempre. E ele sabia que ela sabia.

Houve uma tarde em agosto — uma daquelas tardes preguiçosas que o verão inventa quando quer mostrar que sabe ser gentil — em que não fizeram nada de especial.

Uma esplanada qualquer. 
Um cocktail mundano. 
O jornal que ninguém leu. 
Entrelaçados entre os sentimentos e medos sem que nenhum dos dois tivesse dado conta de quando tinha acontecido.

Foi talvez o momento mais perfeito do verão inteiro.

Não há fotografia. Não precisava.

Teve também as noites de música — uma numa sala pequena, daquelas com paredes que guardam décadas de notas e onde o som envolve antes de pedir licença, onde foi por ela e ficou por ambos. 
E depois houve o festival — milhares de pessoas, luzes, a música tão alta que se sentia nos ossos — e dançaram sem coreografia e sem vergonha, completamente entregues àquilo, completamente entregues um ao outro, rindo de nada e de tudo, suados e felizes com aquela felicidade simples e brutal de quem está exactamente onde quer estar. 

No meio de tudo aquilo, no meio de toda aquela gente, havia apenas dois.

E esse amor por aí? diria a música se soubesse falar. 
E eram-no. Completamente.

Setembro chegou a fingir que não era o fim. 
As noites ficaram mais frescas, mas eles não deram conta logo — estavam demasiado ocupados a inventar desculpas para ficar acordados mais tarde, para esticar os dias, para fazer de cada tarde a última do verão sem nunca admitir que era.

Havia um jogo que só eles conheciam. No meio de outras pessoas, de conversas que não importavam, havia olhares que diziam tudo o que as palavras não podiam dizer. 

Se eu pudesse. Só isso. E o outro entendia sempre.

Por isso inventavam pretextos para desaparecer — lugares onde havia gente, mas ninguém existia, e outros onde não existia mesmo ninguém, só eles e o silêncio que escolhiam partilhar.

A magia do momento tanto sentenciava uma banda ao vivo a tocar exactamente a música certa, como se alguém tivesse combinado com o universo, como criava momentos e sentimentos que ficavam só para eles — demasiado puros para serem contados, demasiado reais para serem partilhados.

E havia os beijos — roubados entre o mundo e eles, guardados para os momentos em que finalmente estavam sós, com aquela intensidade de quem sabe que o tempo é curto e que por isso cada segundo tem de valer dois.

A última noite foi numa praia deserta.

Havia fogo na areia. E neles. Silêncio que não pesava.
O mar a fazer aquele tumulto antigo que existe antes de nós e vai existir depois — e no meio disso, os dois, que sabiam que o verão ia acabar e escolheram não falar nisso.

Falaram de outras coisas. De tudo. De nada. 
Como sempre tinham feito. 
Como dois estranhos que se conhecem melhor do que ninguém. 
Como quem já se encontrou antes — noutro tempo, noutra vida — e sabe que vai voltar a encontrar-se.

E quando o frio finalmente chegou a sério — quando setembro mostrou o que era de verdade — havia um sorriso guardado que nenhum inverno ia conseguir arrefecer.

Agora, tempos depois, quando as noites começam outra vez a convidar — e voltar a cheirar a protector solar e música frenética e noites que não querem acabar — há um sorriso que aparece sozinho.

Porque um verão assim não se esquece. E o próximo não tarda!

(Todos os direitos reservados CronicasNM)

All Fired Up
Pat Benatar


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