Um Amor às Colheradas...
Houve quem apregua-se que amava a baldes. Eu não, eu prometi amar pequeno, nos pequenos getos.
E dessa forma coube-me amar-te às colheradas. Uma de cada vez, contadas, medidas, roubada ao relógio de um qualquer dia que não nos pertencia. E aprendi — porque tu me ensinaste sem ensinar — que uma colher cheia da coisa certa mata mais a fome do que um balde inteiro de tudo o que não presta.
Diziam-me que pouco era pouco. Mentira. Pouco da pessoa certa é mais do que muito de toda a gente. Eu tinha-te aos bocados, e mesmo aos bocados tinha-te mais inteira do muitos quem teem a dormir ao lado todas as noites e nunca souberam sequer o sabor de alguem.
O mundo confunde, sempre confunde, o vizinho confunde secretaria ao lado confunde, há sempre quem e o que. Há quem ache que amar é ter, que estar é possuir, que a prova do amor se conta nas horas, nos dias, na pele vista à vontade. E há nós — que nos conhecíamos a alma sem nunca termos tido o luxo do tempo aborrecido, da tarde desperdiçada, do amor que se pode dar ao luxo de não ter pressa, aquelas almas que teriam trocado tudo pelo desplante de ter coragem de acreditar que o acordar é aquele desgrenhado de cabelo e sono e mesmo assim o coração palpitar de emoção.
A nós faltou-nos sempre o relógio. Sobrou-nos tudo o resto.
E talvez seja por isso que esta saudade não dói como ferida. Dói como aquela canção que toda a gente ouve mal. Põem-na a tocar, choram, e acham que é uma canção de amores perdidos, de camas frias, de namoros desfeitos. Não estudaram. Não perceberam. Aquela canção não foi escrita para uma amante. Foi escrita para um amor que se perdeu de si próprio — para a falta que faz alguém que nos fez bem, mesmo que nunca tenha sido nosso da forma que os outros entendem por «ser nosso».
Não na cama. Aqui, ou no mundo. A fazer-me bem de longe, como sempre fizeste. A ser, em qualquer canto onde andes, a prova de que existiu uma vez uma pessoa que me conheceu a alma sem precisar de me ver o resto.
Porque é isso que ninguém percebe destas coisas: o amor maior não é o que se despe. É o que se reconhece. E a ti, eu reconheço-te ainda — numa frase, num gosto a horas tontas, num sinal que só nós sabemos ler.
Amei-te às colheradas, sim.
E foi a refeição mais farta da minha vida.
Sharp Dress Man
ZZ Top

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