Um gatilho ainda não premido,


Havia uma hora naquela noite que não devia existir.

Uma daquelas horas que a cidade guarda escrupulosamente para os que não têm medo do escuro — ou para os que tendo — vão na mesma.

Ele deu o primeiro passo. Ou foi ela.

Já ninguém se lembra, e isso é apenas um pormenor que simplesmente não importa — porque quando estão juntos a ordem das coisas deixa de fazer sentido.

O bar respirava música a baixo volume, fumo velho, e aquela cumplicidade silenciosa dos que escolheram a noite como destino.

E como quem se entrega sem conselhos ou defesas, aconteceu — como sempre começa entre eles. Sem aviso. Sem cerimónia.

Um olhar.

Só isso. Mas do tipo que cativa, que prende com uma dormência psicótica, do tipo que não pergunta — declara.

Ela com o copo suspenso a meio caminho da boca, os olhos fixos nele com uma calma que era tudo menos serena. Uma tempestade parada. Um gatilho ainda não premido, um querer que incendeia.

Ele como quem não tem pressa — porque quem procura o sabor das coisas, quem degusta teimosamente cada nota de sentir, nunca tem pressa.

Devagar. Com aquele olhar que ela conhecia demasiado bem, que já a tinha desconcertado mais vezes do que conseguia contar.

Cada passo uma intenção denunciada.

Cada intenção uma pequena explosão silenciosa em qualquer coisa dentro dela que teimava em desmoronar — com uma elegância que a envergonhava.

Danças?

Não era uma pergunta. Era uma sentença.

E ela sorriu — aquele sorriso de quem reconhece o perigo, calcula o risco, e decide ir na mesma.

A pista estava semicheia, e eles criaram à volta de si um sentir egoísta, lançaram um daqueles truques de quem esquece o mundo que os rodeia.

A mão dele na sua cintura não era gentil — era precisa. Como quem sabe exactamente onde pressionar para que tudo ceda.

Ela sentiu o calor atravessar o tecido do seu vestido, subir, instalar-se em sítios que não têm nome em voz alta.

A música pulsava. Ela pulsava — as duas coisas já não se distinguiam.

Havia sussurros trocados que a música engolia antes de chegarem ao seu destino.

Havia sorrisos que apareciam tarde — sempre tarde — como quem tenta resistir e percebe, demasiado tarde, que já não consegue.

Havia aquele momento em que os rostos quase se tocaram — quase — e o espaço entre eles foi, por um instante, a coisa mais carregada de toda a sala.

Ele baixou a cabeça — devagar, deliberadamente — e ficou ali. Os lábios a um milímetro do pescoço dela.

A respiração quente a correr-lhe pela pele como um pecado que ainda não tinha nome, mas que ela já conhecia de cor.

Não a beijou. Pior do que isso — ficou ali. À espera. Como quem sabe que aquele instante entre a vontade e o beijo é onde tudo arde de verdade.

Ela não se mexeu.

Não porque não quisesse. Porque sabia que ceder um milímetro sequer era o fim da resistência — e a resistência era a melhor parte do jogo. A faísca que chama o desejo.

Vais fazer-me perder o juízo, sussurrou ela — sem saber bem se era uma queixa ou um pedido.

Ele afastou-se o suficiente para a olhar. Tinha aquele brilho nos olhos — aquele brilho maldito que ela adorava odiar, que lhe desarmava tudo, que passava de forma abrupta por cima de todas as defesas sem sequer pedir licença.

Já perdeste. Só ainda não assumiste.

E tinha razão. Maldito — tinha sempre razão.

A música envolveu-os entre os olhares que gritavam quero-te e os silêncios que denunciam vontades obscenas — e dançaram.

Havia toque — pele que conhece cada poro. Havia mãos que sabem de cor o que nunca precisaram de decifrar.

Havia aquele momento em que os corpos falam um idioma mais velho que as palavras, mais honesto que qualquer coisa que se possa dizer em voz alta.

Ela tinha os dedos enroscados na lapela dele. Ele tinha os olhos nela como quem lê o roteiro de uma conhecida e viciante aventura.

E quem olhava de fora — bom, quem ficava de fora mordia o lábio sem dar conta. Sentia qualquer coisa parecida com inveja, mas mais bonito — era anseio.

Aquela vontade de um dia ter alguém que o olhe assim. Que o mova assim. Que o faça sentir que arde de dentro para fora numa sala cheia de gente — e que nem sequer se importe que o vejam.

Porque eles… Eles não se importavam. Estavam demasiado ocupados a perder-se um no outro.

A música mudou. E com ela o mundo que os envolvia desapareceu.

Ela encostou a testa ao pescoço dele e fechou os olhos. Ele apertou-a um pouco mais — não muito. O suficiente. Aquele suficiente que só existe entre duas pessoas que já aprenderam a medida exacta um do outro.

E ali ficaram — a arder devagarinho, com toda a elegância de quem sabe que o fogo mais perigoso é sempre o que parece controlado.

Até deixar de parecer. 


Rebell Yell
Billy Idol

Comentários

Anónimo disse…
... Esse "teu mundo", deve ser uma coisa absolutamente fantastica!

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