Até Daqui a Pouco



De todas as memórias que guardo de ti, há uma que surge sempre primeiro: sentado ao teu lado, enquanto tu lias o jornal, naquela típica pastelaria da avenida e a forma como saboreavas o teu café.

Não percebia grande coisa do que estava escrito naquelas páginas — mas tu sabias isso. E por isso deslizavas, com aquela calma que era só tua, o suplemento na minha direção. As sete diferenças. Um jogo de criança, pensava eu. Só mais tarde percebi que não era bem isso.

Estavas a ensinar-me a olhar devagar. A não deixar passar o que parece igual, mas não é. A vida, afinal, é cheia de diferenças que só se veem quando se presta atenção.

Ensinaste-me assim — sem que eu desse conta de que estava a aprender.

Foste tu que me contaste do D'Artagnan com aquela voz que tornava tudo maior, dando ênfase ao um por todos e todos por um como se fosse uma promessa e não apenas uma frase. Foste tu que me mostraste Don Quijote — aquele homem desajeitado que corria atrás de sonhos impossíveis — e que nunca disseste que era ridículo. Nunca. Como se soubesses que eu ia precisar de saber que o desajuste não é um defeito, é às vezes a única forma de ser inteiro.

E quando me puseste O Principezinho nas mãos pela primeira vez, disseste que as letras eram as mesmas dos livros de quadradinhos. Como se o salto fosse pequeno. Como se acreditasses, antes de mim, que eu era capaz.

Sempre fizeste isso. Tornaste as coisas possíveis antes de eu saber que eram difíceis.

Não sei se alguma vez te disse o suficiente. Provavelmente não disse. 

Há coisas que a gente guarda para depois — e o depois às vezes não chega.

Lembro-me do último dia. Do teu sorriso. Do até daqui a pouco que disseste só para sossegar o meu coração — como sempre fazias, como fizeste a vida toda. Sossegavas o mundo à tua volta sem fazer barulho nenhum.

Esse até daqui a pouco tornou-se eterno.

E eu fiquei aqui, com as sete diferenças que aprendi a ver, com o um por todos que carrego comigo, com os sonhos desajeitados que não tenho vergonha de perseguir, com as letras que aprendi a amar porque tu tornaste o salto pequeno.

Ficas em tudo isso.

Em cada vez que olho devagar e vejo o que os outros deixam passar. Em cada vez que fico do lado de alguém sem hesitar. Em cada vez que escolho acreditar antes mesmo de saber qual o tamanho do salto.

Foste fazendo de mim muito do que hoje sou — e fizeste-o sem que eu o soubesse.

Essa é a maior habilidade que já vi em alguém.

Já passaram demasiados anos desde esse até daqui a pouco, e eu com a ingenuidade que demonstravas ser essencial na vida para dar a mão à felicidade, tal como me ensinaste — acreditei, porque “acreditar é a chave que abre todos os tesouros”.

E assim, enquanto espero para te reencontrar, enquanto espero novamente por aquelas conversas que foram crescendo à medida do tamanho dos meus sapatos, pelo teu sorriso, que dizem herdei de ti, por tudo o que a saudade guarda esperançosamente, hoje sou eu que saboreio o café enquanto leio o jornal que, sem saber, me era tão habitual, na renovada pastelaria da avenida.
 
(Todos so direitos reservados CronicasNM)

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