Life on Mars ain't just a song!

 



 

"Há coisas que não se procuram — simplesmente aparecem, como se sempre tivessem estado à espera do momento certo. A gaveta abriu-se quase por engano, e ali estava ela. Dobrada, paciente, com aquela letra inconfundível que só eu conheço, cada traço que só a minha mão direciona. Peguei nela com a estranheza de quem segura algo familiar que não devia existir. Li o nome. Era o meu. Mas quem a escreveu... ainda não sou eu."


 
Meu Rapaz, meu bom rapaz com essa força peculiar, pelo que tens andado a lutar? Quem te ensinou a ter esse medo do que não conheces?
 
E essa testa franzida? Que sei que fazes quando alguma coisa não encaixa, e agora, certamente, não será exceção — já a conheço bem. Melhor do que pensas, aliás. Porque já estive aí, no mesmo lugar que ocupas agora, com o mesmo peso que carregas neste momento. Aquele silêncio que trazes dentro do peito e que teimas em chamar de força. 
Aquela vontade de desaparecer um pouco, só para ver se alguém daria conta. Aquele medo — esse medo ridículo e real ao mesmo tempo — de que talvez não chegues a ser suficiente para ninguém. Nem para ti.
 
Deixa-me dizer-te uma coisa: és.
Mas ainda não sabes isso. E está tudo bem.


 
O tempo vai passar e os verões vão chegar mais cedo, e no tempo certo os sorrisos irão preencher as manhãs, ao virar de uma esquina, ou em qualquer momento desajeitado o amor vai "bater-te à porta", acredita.
Vai preencher cada pedaço de vazio de uma forma que a tua alma vai estranhar.
 
Vais amar pessoas que não ficam, e isso vai doer de um jeito que não tem nome.
Vais acordar de manhã com o lado da cama frio e convencer-te de que foi escolha tua — quando na verdade tinhas tanto medo de ser abandonado que foste tu o primeiro a partir.
 
É um truque que aprendeste cedo e que te vai custar caro. Fica com isso.
 
Guarda os momentos em que os sentimentos se vão sobrepor ao racional, saboreia o sentido dos queres, daquela falta de ar momentânea em uma troca de olhares, guarda-os bem porque esse momento chegará, naturalmente dentro dos planos que hoje são só imaginação.
 
E depois haverá os outros — aqueles que não chegam com fogo nem com promessas. Chegam devagar, ficam sem avisar, e um dia irás perceber que são o chão firme onde poisas quando tudo o resto treme.
Guarda-os também.
A cumplicidade verdadeira não faz barulho, mas a sua ausência ensurdece.


 
Mas, não há bela sem senão, é meu caro, faz parte, mas vê pelo lado positivo, sem noite nunca saberás a alegria do nascer do dia.

E por muito que me custe, e acredita que custou, como entre o aí e o aqui irás constatar, vais conhecer pessoas que vão tentar definir-te. Que vão usar as tuas inseguranças como espelhos e chamar-lhe verdade.
(É, a arrogância das circunstâncias vai ter o dom de fazer acontecer.)
 
Ouve-me: não és o que dizem de ti nas noites em que a raiva tomou conta.
Não és o pior que já fizeste.
Não és sequer o melhor — és o conjunto de tudo, o caos organizado de alguém que tentou, e isso muitas vezes é mais importante que conseguir.
 
Haverá dias em que o mundo vai parecer feito de queres que não são teus e máscaras que não assentam no teu rosto — perdão, no nosso rosto.

Dias em que vais sentir que és o único que não percebeu as regras do jogo. Nesses dias, lembra-te: os verões estão por aí, as alegrias e claro, inevitavelmente, as partidas, mas também as chegadas, não é em vão esse otimismo desmedido, essa esperança no futuro, não a percas. Não estejas tão sozinho dentro de ti, não terá cabimento e muito menos sentido.


 
Vai haver conquistas. Mais do que imaginas agora.
Vão chegar de mansinho, sem fanfarra, sem o estrondo que sempre esperaste — e por isso vais quase não dar conta.
 
Aprende a parar — a contemplar os capítulos, a perceber o cheiro dos momentos, a apreciar os afetos. Não saltes logo para o próximo. Fica um momento, desacelera. Mereces.



E nos dias de outono, farruscos e maldispostos, será inevitável, irás quebrar, as lágrimas irão escorrer-te pelo rosto, o desespero vai espreitar uma estúpida oportunidade.
 
É, infelizmente, irá acontecer, mas se queres um conselho? Não percas muito tempo com isso, dedica-lhe apenas o essencial para lavares a alma, e a seguir aproveita a beleza do castanho das folhas que suavemente pintam o chão, ou os pingos de chuva no vidro da janela, ou de como o aconchego de uma conversa à lareira acalenta mais uns tempos de calendário.

Não te vou mentir, nem sempre a vida será no lado de cima, existirão momentos em que esta montanha-russa irá de cabeça para baixo, faz parte.
 
Por mais absurdo que possas achar, vais magoar pessoas. 
Não por maldade — nunca por maldade. Mas por pressa, por medo, por aquela incapacidade tua de pedir ajuda antes de chegares ao limite.
E quando isso acontecer, não fujas. Fica.
Pede desculpa de verdade, não para te sentires melhor, mas porque a outra pessoa merece ouvir.

Há uma diferença enorme entre as duas coisas, e demora-se tempo a aprendê-la.

O ódio é ensinado e às vezes resulta.
Mas o amor — o amor vem naturalmente.

Deixa-o vir, não cries barreiras agarrado a sensações e pensamentos que já deveriam ter o rótulo de saudade.



E um dia, não te vou dizer quando, mas um dia vais olhar para trás. 
Vais ver o rapaz que foste — assustado, brilhante, teimoso, cheio de vida mal gerida e sonhos grandes demais para os bolsos — e vais sentir uma coisa estranha.
Não é orgulho, exatamente. É qualquer coisa mais suave. Talvez gratidão. Por teres acreditado quando o mundo queria que parasses. Por teres escolhido continuar, mesmo nas noites em que o silêncio te sussurrava que parar era a escolha mais sensata.
 
E nesse dia, quando esse dia chegar, e alguém novo cruzar o teu caminho com os mesmos olhos que tu tinhas — perdido, à procura, a lutar contra fantasmas que mais ninguém vê — faz o que eu faço agora.
 
Acredita. Acredita com tudo o que consigas sustentar, que o caminho e o destino que te trarão aqui, a este mundo distante onde o sensato casou com a leve aventura, são reais — tão reais quanto Marte.
 
Não esperes nem um segundo. E com o mesmo entusiasmo com que me trouxeste até aqui, ensina-lhe tudo o que aprendeste pela vida, para que ao dia de hoje eu possa ir aprendendo a ser quem te tornaste!
 
P.S.:
(Para que tão real como agora se respira em Marte, os teus sonhos se tornem verdade)


(Todos os direitos reservados CronicasNM)


Vienna
Billy Joe


Comentários

Anónimo disse…
Ah, %$&##”&%$$= (que ia dizendo uma asneira) 😊
Genial!!!
O título, a escolha da foto, a envolvência do texto e a cereja no topo, só que esta com sabor e que sabor, “Vienna” é simplesmente perfeito!
Adorei 👏
Obrigado,
E sempre que sentir vontade apareça por cá
Ah e claro, Boas leituras

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