Antes que o Mundo Dê Conta,

 


Há palavras que se formam devagar, como nuvens que não chegam a ser chuva. Ficam ali, suspensas, entre o peito e a boca, à espera de uma coragem que — descobrimos tarde demais — nunca chegou a aparecer quando mais importava.

Pensei em chamar-te. Cheguei mesmo a ponderar a loucura de te procurar, em te ligar, a procurar o teu nome, a ensaiar em silêncio qualquer coisa parecida com foge comigo. Mas já era tarde — ou demasiado cedo — e tu estavas longe demais para que as palavras chegassem inteiras.

E mesmo assim, o pensamento teimou em ficar. Como sempre ficou. Porque há uma diferença enorme entre saber que não dá e conseguir acreditar nisso. E eu, confesso, nunca fui bom a acreditar no impossível quando ele tem o teu sorriso.

Fomos assim durante tanto tempo — dois mundos que se atraíam sem se poder tocar. Não por falta de querer, isso nunca faltou. Faltou espaço. Faltou coragem. Faltaram as circunstâncias certas que nunca se alinharam completamente. Havia sempre alguém, ou alguma coisa, ou o medo — sobretudo o medo — a ocupar o lugar onde nós devíamos estar.

Amámo-nos às escondidas, como se o nosso sentimento fosse uma coisa frágil demais para sobreviver ao olhar dos outros. E talvez tenhamos protegido tanto esse amor que acabámos por sufocá-lo devagar, sem dar conta, até que o silêncio foi crescendo e os quilómetros foram aumentando e os anos foram passando e hoje somos pouco mais do que uma memória um do outro.

Uma memória que dá os parabéns. Que deseja boas festas. Que escreve tudo bem? de vez em quando, sabendo que a resposta nunca vai ser inteira.

E se desse?

E se, por uma dessas distrações generosas que a vida às vezes oferece, tudo o que nos prendeu ficasse pequeno de repente? E se largássemos tudo — os medos antigos, as opiniões alheias, as versões de nós próprios que fomos construindo para sobreviver à ausência um do outro — e simplesmente fosse embora, antes que o mundo desse conta?

Não precisavas trazer nada. Só isso que trazes sem querer, esse sorriso desatento que faz estrago em tudo o que encontra — e que eu ainda consigo ver, mesmo só a imaginar. O caminho inventava-se a andar, como quase fizemos tantas vezes, como se a vida fosse uma história que se escreve ao contrário — primeiro a aventura, depois o sentido.

Fingiríamos que o mundo ficou pequeno demais para nós os dois. Que precisávamos de mais espaço, de outro ar, de uma versão da realidade onde o tempo fosse generoso e os medos não tivessem ganho.

Estou aqui, teimosamente, com essa suavidade de quem fica mesmo quando devia ir embora, de quem sabe que arrisca — e que, mesmo assim, acha que vale a pena. Porque há loucuras que são a coisa mais sensata do mundo, e esta é uma delas.

A loucura de quem carrega silêncios corteses e ainda assim encontra dentro deles espaço para te pôr lá dentro. A loucura de quem sabe, com uma clareza absurda, que és a única variável que teria mudado tudo — o ângulo da luz, o peso do dia, o sabor do ar a meio da tarde.

Há quem chame a isso não saber largar. Eu chamo destino com má pontaria — daqueles que chegam tarde demais ou cedo a mais, mas que chegam sempre com uma precisão desconcertante.

Imagina. Só por um instante, imagina que dizíamos que sim — a nós, à ideia, ao impulso. Que apagávamos estes anos todos de recados de aniversário e começávamos outra vez, noutra letra, noutra cidade, com outro ritmo. Um ritmo que fosse só nosso, sem audiência, sem as vozes de quem sempre teve opinião sobre o que devíamos sentir.

Inventávamos um nome para o sítio onde íamos parar. Chegávamos sem reserva e sem plano, como personagens que escaparam de o livro antes do autor decidir o fim. E talvez fosse exatamente isso — escapar antes do fim já decidido, escrever nós próprios a última linha.

Eu sei que a vida não funciona assim. Sei que há anos e anos de distância, e outros caminhos escolhidos, e versões de nós mesmos que prometemos ser e que não se largam facilmente à beira da estrada. Sei tudo isso.

E mesmo assim, há noites — como esta — em que o sensato parece a coisa mais estranha do mundo, e a loucura de te chamar vem comigo parece a única frase que ainda faz sentido completo.

Porque fugir contigo não seria fugir de nada. Seria, talvez, a primeira vez que eu corria em direção a alguma coisa de verdade. Aquela coisa que sempre soubemos que era real, mas que nunca tivemos coragem de deixar existir à luz do dia.

E então?
Vens?
Vens comigo?


(Todos os direitos reservados CronicasNM)


Just Like Heaven
The Cure

Comentários

Anónimo disse…
Vou! ☺️
Parabéns 👏

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