Outra vida,

 



Quem me dera,
Quem me dera que a saudade, fosse só um pedaço de ficção em um qualquer livro de Shakespeare, ou de Garcia Marques, ou de um qualquer folhetim corriqueiro que fosse,
 
Quem me dera que, este egoísmo desta dor mundana, a que a mais estranha sina nos destinou, do desgosto que é a ausência de quem nos faz falta e acima de tudo bem, mesmo que se acredite, nem que seja para se embair a angústia, em um bem maior, fosse um pedaço de papel para se poder rasgar sem olhar para trás.
 
Se pudesse, ai se eu pudesse….
Penhorava todas as quimeras, por apenas mais um dia e dessa forma, por qualquer preço, por qualquer custo, aproveitá-lo contigo, sentar-me e contar-te todas as histórias que junto com a vida fui escrevendo, ver-te sorrir pelas minhas piadas tontas enquanto mais uma vez reviravas os olhos com o ar de quem diz – “É o que é, fazer o quê! “ e sentir-te, passear contigo no parque, ouvir os teus sábios conselhos que sempre me acalmaram, fossem eles por ter esfolado um joelho, ou a maior duvida existencial experienciada pelo mais comum dos mortais.
 
Pedia para que o mundo se esquecesse de mim só dessa vez, para que não existissem distrações.
Guardava todos os bateres do teu coração, para que depois ilusoriamente engasse a tristeza.
 
E quando as noites começassem a ficar frias e o silencio fosse mais pesado que a lembrança, desejaria um sussurro teu, um vislumbre do teu sorriso.
 
Se o mundo, marte, o mais esperançoso dos sentires, ou, até, o mais malévolo dos seres me oferecessem uma tarde, ou uma manhã, que fosse, hipotecava os respirares para estar contigo, não perderia tempo a contar-te histórias insignificantes, ou outra qualquer palermice, saboreava cada segundo, cada olhar teu, cada abraço, davas-lhes a importância que mereciam.
 
Se me permitissem um almoço, um lanche, poderia ser o mais bafiento cachorro-quente em um banco de jardim e aproveitaria para te admirar, ficar só a olhar-te a registar cada pormenor do teu cabelo, da cor dos teus olhos, do teu jeito, do tom da tua voz e não os daria por garantido no dia de amanhã.
 
Se os sonhos e a imaginação pela mão de Joe Grant me oferecem um bilhete para um qualquer momento, pediria um qualquer que fosse contigo, poderia ser ao primeiro dia naquela velha escola, aquele que com a experiência de quem já passou por todos os medos, me deste a mão e mais uma vez acalmaste o meu coração que disparava como uma flecha.
(sempre tiveste o espantoso dom de perceberes o mais pequeno fantasma que me assombrava sem que fosse preciso dizer uma única palavra.)
 
Se mesmo assim um momento fosse demasiado e tudo o que tivesse direito fosse um mero relance aproveitaria para te olhar, para de alguma forma provar à culpa que o passar do tempo não apaga o mínimo traço teu.
 
Guardaria todos os teus maravilhosos bons dias, estivesses onde estivesses, com o humor que tivesses, aprenderia tudo o que me quiseste ensinar e não teria a arrogância de confiar que não seriam findáveis.

Se por ironia das ironias, por tratado, decreto, decisão ou nomoi agraphoi, tudo o que me fosse oferecido fosse dizer-te algo mais uma vez, não gastaria o tão significativo instante correndo o risco de fazeres uma birra só porque ouvias a palavra “parabéns” acompanhada por meia dúzia de palmas.

 No dia de hoje, apenas agradecia ter-te aqui e de sorriso nos lábios desejar-te-ia:
- Um feliz dia mana… ❤️


Saudade 
Miguel Araujo ao vivo (c/ os Quatro e Meia)

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